Existem formas mais fáceis de
chegar ao destino de férias preferido dos brasileiros que buscam neve.
Quatro horas e meia de avião ligam São Paulo a Bariloche. Mas a rota
percorrida por Don Carlos ainda está lá. No lugar de trilhas abertas a
facão e um bote, estradas pavimentadas e barcos climatizados. O que
pouco mudou foi a paisagem, com lagos coloridos em tons de azul e verde,
rios, cachoeiras, picos nevados e os monumentais vulcões. A natureza
convida a seguir pelo caminho longo.
Puerto Varas
A jornada começa pouco mais de mil quilômetros ao sul de Santiago,
Puerto Varas, capital turística do sul chileno, no limite norte da
Patagônia chilena. Nem precisa rodar muito para perceber a influência
colonial. Desde o aeroporto, saindo de Puerto Montt, vê-se que quase
todas as casas são de madeira - ou imitando o material, com estilo
remetendo à arquitetura de montanha dos Alpes.
A influência
também está na gastronomia. Não deixe de passar em um dos cafés da
cidade, especializados em doces alemães, com biscoitos, bolos, geleias
artesanais e a principal iguaria, o kuchen, uma espécie de torta com
frutos silvestres da região. A culinária se complementa com a tradição
de boas carnes do sul do Chile e os frutos de mar vindos da baía de
Puerto Montt. O turismo pelo paladar fica completo nas cervejarias
artesanais com sotaque germânico.
Getty Images
Vulcão Osorno visto desde os Saltos de Petrohué
É ao chegar à beira do lago Llanquihue que a natureza encanta pela
primeira vez. Nos dias sem muitas nuvens, dois grandes vulcões preenchem
o horizonte: Calbuco e Osorno. Este segundo é uma das principais opções
de passeio na região. Durante os meses de inverno funciona como estação
de esqui, com opções de pistas para todos os níveis. Mas, mesmo no
verão, com as pistas fechadas, vale a visita para subir até 1.425 metros
de altitude pelo teleférico e ter uma vista panorâmica do lago.
Depois de desfrutar tudo que Puerto Varas tem a oferecer, está na hora
de seguir o caminho pelos Andes. A jornada dura um total de 13 horas e
pode ser feita em um dia. Mas se a ideia é ir com calma, há dois pontos
de pernoite na viagem.
O Cruce Andino
O
trajeto margeia o lago Llanquihue até a praia da Enseada, onde a estrada
segue em direção ao Lago de Todos os Santos. Mas não sem antes fazer
uma parada nos belos Saltos de Petrohué. O rio, que nasce no lago, corre
por rochas vulcânicas, formando uma sequência de cânions e cachoeiras
de águas cor turquesa.
Após duas horas de ônibus saindo de
Puerto Varas (dica: sentado no lado esquerdo do veículo você aproveita
melhor a vista), chega a hora do primeiro trecho sobre as águas. É
preciso cruzar todo o Lago de todos os Santos, que cobre uma área de
178km², em uma viagem de 1h40 até o pequeno vilarejo de Peulla. Por todo
o caminho, a companhia dos quatro vulcões da região: Osorno, Calbuco,
Puntiagudo e Tronador, o maior de todos, chegando a 3.491 metros de
altitude.
Peulla
Do vilarejo de Peulla
pouco se vê. Afinal, não há mesmo muito para observar. São apenas 120
habitantes espalhados em casinhas pela região. A atenção fica nos dois
hotéis, o Peulla e o Natura - as únicas opções de refeição e hospedagem,
e no belo vale do rio, que segue por 16km cordilheira adentro.
Felipe Floresti/UOL
Paisagem nos arredores do Lago Frias é deslumbrante
Quem decide passar a noite pode aproveitar para fazer passeio cavalo ou
entrar em um 4x4 em um safári pelos cantos mais remotos do vale. Mas em
Peulla tudo depende do clima. Uma piada local diz que quando não está
chovendo é porque vai chover. Mas nada que justifique o desânimo.
"Sabíamos que é uma região que chove muito e faz parte do turismo de
natureza", disse o brasileiro Reinaldo José Silva, de férias com a
família. "Para quem gosta de natureza, não tem como não ficar
satisfeito. Mesmo debaixo d'água".
Do Chile a Argentina
Saindo de Peulla, o próximo passo é passar pela imigração. Um posto da
polícia de fronteira chilena fica a poucos metros do hotel. O caminho
segue sinuoso em meio à floresta, sempre subindo. Alguns sinais de neve
derretem na beira da estrada quando uma placa anuncia a fronteira entre
Chile e Argentina. Saímos do Parque Nacional Vicente Perez Rosales para
entrar no parque Nacional Nahuel Huapi.
Depois
de uma longa descida, chegamos ao Puerto Frias, onde fica a imigração
Argentina. Esse ponto talvez demore mais, já que na entrada do país
algumas malas que seguem no ônibus são escolhidas aleatoriamente para
serem revistadas. Aproveite o tempo de espera para apreciar as águas de
cor verde-clara, que escorrem do degelo do Monte Tronador até o Lago
Frias, e ficar atento à fauna local, com aves de rapina e animais
maiores. Tivemos a sorte de encontrar uma raposa.
São mais 20 minutos para cruzar o pequeno Lago Frias, seguidos por um
trecho curto de van até Puerto Blest. Lá fica a segunda opção de
restaurante da viagem (também tem bares com snacks nos barcos) e a
partir de novembro de 2015 começa a funcionar um hotel no local.
A maior atração, porém, fica ao lado do hotel. Um rio que sai do Lago
Frias deságua na pequena baía que dá início ao grandioso lago Nahuel
Huapi, com seus 557 km² de superfície. Dá para perder um bom tempo só
observando o esmeralda se fundir lentamente com a água azul escura. Uma
caminhada em meio à vegetação leva ao Lago Cántaros, com uma cachoeira
que leva seu nome. Outra atração é um milenar alerce, uma árvore típica
da região cuja madeira foi muito utilizada para a construção das
casinhas em estilo alpino.
Felipe Floresti/UOL
Flagra do momento que uma gaivota pega a bolacha da mão de turista
Fim da jornada
O trajeto pode ser percorrido também no sentido contrário, partindo de
Bariloche. Mas, seguindo o guia Patrício, sair do Chile é mais
recomendado, pois a visibilidade dos vulcões é melhor pela manhã. Ele
também prefere fazer o percurso no inverno, quando a paisagem branca
contrasta com as folhas avermelhadas da lenga, uma árvore comum na
região. No verão, quando chove menos e o calor é maior, o que atrapalha é
a mosca tabano, no Brasil conhecida como mutuca.
A viagem parte para o último e longo trecho sobre a água. São duas
horas em uma embarcação para até 200 passageiros por um dos braços do
lago Nahuel Huapi. Montanhas nevadas acompanham a paisagem. Para deixar
tudo mais divertido, um grupo de gaivotas segue a embarcação, atenta a
qualquer um que as ofereça uma bolacha de água e sal, vendida na
embarcação com esse propósito. Chegado em Puerto Pañuelo, é mais uma
hora de estrada no derradeiro trecho até o destino final.
Depois de um dia intenso, enfim Bariloche. O caminho é longo, mas dá
para ser ainda maior, indo de bicicleta por onde foi o ônibus. Outra
opção é fazer o percurso de Puerto Varas a Bariloche de ônibus. É mais
rápido (apenas 4h) e barato, US$ 26** contra US$ 230** do roteiro do
Cruce Andino, sem contar refeições, possíveis pernoites e atividades não
inclusas. Mas aí não tem passeio no lago, não se vê cachoeira, a
gaivota não come da sua mão e vulcão só é visto pelo vidro embaçado do
ônibus. A escolha é do freguês.
* O jornalista viajou a convite do Cruce Andino
** Valores consultados em setembro de 2015 e sujeitos a alterações